Entre julho de 97 e julho de 98, Smells Like Teen Spirit passou por mais um período de adormecimento. Submeti o livro à apreciação geral de meus amigos, fazendo circular entre eles uma impressão encadernada em espiral com diversas folhas em branco no final. Essas folhas foram preenchidas com as impressões de meus leitores-teste, que serviram como base para uma revisão final, onde eu corrigi alguns pequenos detalhes, principalmente no epílogo. Alguns que conheciam o RPG Vampire a fundo apontaram uma série de semelhanças das quais não me dei conta. Na verdade, muita coisa que eu achei que tinha inventado, existia no jogo. Paciência. Não ia mudar nada por causa disso. A única coisa que eu copiei descaradamente foi uma nota que eu li no livro do Sabat anos antes e que acabou virando a cena do homem pendurado de cabeça pra baixo na festa. Aquilo era legal demais pra não ser plagiado! Com o que eu considerava a versão final nas mãos, precisava agora cuidar para que esse livro visse a luz do dia. Trabalhando com editoras para o mercado de bancas de jornal desde 1996, imaginei junto à minha equipe de criação, a Equipe Frente!, em criar uma série de livros pequenos e baratos para bancas de jornal. Apelidamos o projeto de Pulp Fiction e apresentamos para a Editora Canaã com a qual trabalhávamos. Após um tempo, eles aceitaram o projeto. Deveríamos entregar dois livros para o lançamento inicial. Um já estava pronto. O outro foi escrito por Eddie Van Feu num prazo inacreditável de 4 dias, com mais 4 dias para aparar algumas arestas. Assim nasceu Seqüestro, Artigo 159.

Enquanto Seqüestro era produzido, tratei de resolver problemas pendentes de Smells Like Teen Spirit. Um era o título. O provisório não poderia ser usado, eu precisava de um título em português. Durante um tempo ele se chamou Crianças da Noite, título óbvio que não me agradava. Outros títulos surgiram, ruins demais para que eu me atreva a revelá-los. O outro era a capa. Pedi uma tentativa para Patrícia Balan, também nossa amiga e integrante da equipe. O resultado não era o que precisávamos. Teria que ser algo mais impactante e comercial.

E o título ainda me incomodava. O engraçado é que ele estava do meu lado, quase me mordendo. Assim que terminei a primeira versão do livro, produzi um “trilha sonora” para ele numa fita cassete (a tecnologia do CD ainda não estava ao meu alcance). Reuni as músicas como se fosse para um filme, com músicas do Nirvana, Björk, Tori Amos, Decoriah e Cramberries pontuando algumas cenas. Mas a maior parte foram de músicas instrumentais bem cinematográficas, todas compostas por Elliot Goldenthal. Emprestei a fita junto com o livro impresso para meus “leitores-teste” para terem um sabor do clima daquele livro que um dia já foi um filme em minha cabeça. Onde eu quero chegar é o seguinte: para a cena onde Ana vampiriza Lúcia e Susie, escolhi uma música para qual dei o nome de “Blood Sisters”. E esse nome ficou ali escrito na parte interna da capinha da fita cassete durante DOIS ANOS, bem embaixo do meu nariz, enquanto eu me perguntava que nome eu ia colocar no livro...! Anos mais tarde, percebi que as palavras “irmãs de sangue” já estavam no capítulo 10, na cena em questão, desde a primeira versão, ou seja, era ainda mais óbvio do que parecia. O nome “Irmãs de Sangue” apareceu DUAS vezes, uma no cassete e outra no próprio livro, e eu levei todo esse tempo para me dar conta dele.

Quando finalmente percebi que tinha um bom nome, o submeti a todos que leram e ele foi aprovado com entusiasmo. Agora faltava apenas a capa. Pesquisei alguns ilustradores, estes me levaram a outros até que cheguei a Álvaro Camello. Estávamos naquele momento a poucos dias do prazo de entrega. Camello tinha, portanto, apenas dois dias para me entregar a ilustração da capa. Dei uma rápida descrição das personagens e um conselho do qual me arrependi mais tarde: “pode abusar do sexo e violência”. Mas cada pessoa tem sua própria idéia do que significa abuso. Dois dias depois eu tinha uma capa com excesso de nudez e personagens bem mais velhas do que as minhas. Perguntei por que ele não as fez adolescentes. “Ia ficar parecendo ‘As Jovens Bruxas”, respondeu ele. Pois era exatamente isso que eu queria...

Ele fez algumas mudanças pra mim na hora, retoquei a ilustração no computador do jeito que pude, e finalmente estava tudo pronto. Irmãs de Sangue se tornou a edição número um da Coleção Contos de Terror, enquanto Seqüestro era o número um da Série Crime e Ação. Era o mês de maio de 1999.

 

 

 
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