Os dois livros ficaram cerca de 40 dias nas bancas. A Editora Canaã não pediu um número dois para nenhuma das duas séries. Anos mais tarde, soubemos por um dos diretores que aqueles dois livros foram um dos maiores fracassos na história da editora. Era apenas o produto errado, no lugar errado, vendido de forma errada.

Recebi pouco feedback de leitores. O curioso é que quando recebia algum mail, ou até mesmo um telefonema (sim, teve gente que descobriu meu telefone), eram manifestações inflamadas. Quem se deu ao trabalho de entrar em contato comigo, amou o livro (de fato, até hoje recebo mails de fãs desgarrados). Meu pai, coruja como só ele, saiu emprestando o livro para os amigos. Numa dessa, ele foi parar nas mãos da filha de um de seus amigos, uma menina de 12 anos. Ela não só adorou o livro, como emprestou para todos os amigos da escola. O exemplar que voltou para minha mão parecia ter vindo da guerra. Foi então que eu percebi. Irmãs de Sangue tinha seu público, apenas não conseguiu chegar até ele. Eu sabia que no futuro, de alguma forma, esta história voltaria a ser contada. Em 2002, Axia Stowe, desenhista do primeiro álbum de Alcatéia, me propôs transformá-la num mangá. Fizemos um estudo de viabilidade, mas concluímos que ainda não era a hora. Em 2004 este momento chegou.

 

No início de 2004 fiz a proposta para meus sócios da Editora Linhas Tortas, na época ainda engatinhando com no máximo 2 lançamentos por ano. Irmãs de Sangue seria totalmente revisto e ampliado e ganharia uma edição exclusiva para livrarias. A tiragem inicial seria pequena. Meus sócios haviam sido, em sua maioria, os leitores teste da primeira versão e gostavam da história. Deram o sinal verde e eu comecei o trabalho. 

Reler Irmãs de Sangue após tanto tempo me surpreendeu em dois pontos: como tinha coisa boa e como tinha coisa ruim! Alguns trechos e diálogos eram totalmente sem noção. Não tinham a ver com os personagens, apenas coloquei porque deu vontade. Mas o principal problema era (como dizia Hitchcock) a “magreza dos personagens” que não fossem Mikahil, Elise e Ana. Não apenas os coadjuvantes como Júlio, Marcus, Sílvia ou Pabst (este sequer tinha um nome) eram vagos e superficiais, mas até as principais Susie e Lúcia não eram expressivas o suficiente. Enquanto fazia uma enorme quantidade de pequenos concertos, desde vírgulas e espaço duplos até cortar ou adicionar parágrafos inteiros, eu tentava identificar o que poderia tornar aqueles personagens mais definidos.

Um fato curioso aconteceu neste processo. A história se passa nos anos de 1993 e 1994. Mas não há uma indicação concreta destas datas. A única informação que dei foi o dia da morte de Kurt Cobain. Quando me dei conta disso, resolvi conferir a data exata da morte dele, para saber se eu deveria fazer alguma modificação. Não o fiz na mesma hora, deixei para o dia seguinte. Quando conferi a informação na internet, a surpresa: no dia anterior tinha sido o aniversário de 10 anos da morte de Cobain. Isso me pareceu um bom sinal.

Foram cerca de dois meses neste trabalho. Ao fim da jornada, Irmãs de Sangue havia aumentado em 12% seu tamanho (é, o nerd aqui calculou!), menos do que eu esperava. Mas era outro livro, muito melhor do que o antigo, o que me deixou ainda mais feliz de estar tendo esta oportunidade de relançá-lo da forma correta. Não havia tempo hábil para submetê-lo novamente aos mesmos leitores-teste, portanto apenas dois leram a nova versão: Eddie Van Feu e Marcelo Matos. Marco Aurélio também leu, reprisando seu papel de revisor que desempenhou na primeira versão (o livro ficou praticamente “sangrando” de tanta marca vermelha!). Reuni as impressões deles e fechei minha versão final. Tudo parecia pronto, mas ainda existia um fator. Ela! Sempre ela! A capa!

Comecei a pensar nela ainda quando trabalhava na nova versão. Todos os envolvidos com a Linhas Tortas apresentaram idéias. Desta vez não podia ter erro. Quando o texto foi finalizado, passei a trabalhar pessoalmente na capa. Descobri entre meus arquivos uma foto de Gabriela, a menina que me inspirou Ana, nossa heroína. Ela devia estar com 15 anos na foto. Comecei a trabalhar sobre a foto sem saber no que ia dar. O primeiro subproduto desta fase foi um papel de parede que também incluía as outras duas meninas em fotos tiradas mais ou menos na mesma época. Após umas 3 semanas, cheguei à capa que se tornou a definitiva. A logomarca era a mesma da primeira versão, ligeiramente modificada. Só uma coisa eu não acertava: o filete de sangue. Foi mais um mês de tentativa e erro até conseguir um filete convincente, algo que fosse realista, mas ao mesmo tempo dramático, algo mais que o real e menos que o falso. Quem vê pronto não faz idéia do trabalho que deu. Eddie Van Feu chegou a se deixar fotografar com nanquim escorrendo pela boca na tentativa de chegarmos a um "sangue" convincente.

Agora você sabe: o rosto que aparece na capa é da hoje atriz e cineasta Gabriela Werneck, a própria Ana de Irmãs de Sangue, baseado numa foto tirada por Juliana Téran, a própria Susie.

Finalmente estava tudo pronto. O livro foi lançado no AnimeFriends, em São Paulo no início de julho de 2004. No dia 30 de julho foi o grande lançamento da Livraria Saraiva do Shopping Tijuca, no Rio, junto com Eddie Van Feu que estava lançando seu primeiro romance O Portal. Exatamente 10 anos antes, no início de julho de 1994, eu estava conhecendo as meninas Gabriela, Isabela e Juliana numa festa a fantasia promovida por Eddie Van Feu em Botafogo. Se isso não era um bom sinal, eu não sei mais o que é. 

 

 
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