A primeira coisa que muita gente percebe em Irmãs de Sangue é a semelhança com o RPG da Whitewolf Vampiro: A Máscara. Esta origem eu não posso negar por completo. Jogo RPG desde 1991, o bom e velho Dungeons & Dragons 1ª edição. Em 1994, meu grande amigo Mauro Lima promoveu um live action de Vampire em um clube em Jacarepaguá. A única coisa que apreendi de concreto sobre o sistema foi a estrutura social, com os clãs e a Camarilla. De resto, boiei. Demoro a pegar o jeito de um sistema ou grupo novo e nunca me adapto de primeira. Por isso, num jogo de sessão única como foi aquele live, pude captar nada mais que uma sensação. Mas ela foi o suficiente. Dias após o jogo, Mauro comentou comigo idéias que ele teve para o que poderia ser um filme ou um vídeo baseados no jogo e no lugar onde ele foi executado. Estas idéias, infelizmente, não lembro mais. Mas, conforme ele foi falando, eu imediatamente comecei a visualizar o que poderia ser a continuação daquela história. Neste momento, nasceu Irmãs de Sangue.

 

As imagens e idéias que Mauro teve envolviam um dos muitos jogadores daquele live: nosso amigo querido Marco Aurélio, meu primeiro mestre de RPG, um sujeito lindo, de olhar incrivelmente expressivo e que, quando não estava sendo tão nerd quanto nós, ostentava uma postura altiva. Ele foi minha base para Mikahil.

As demais estrelas da história também estavam bem próximas de mim. Mauro mestrava uma mesa de D&D na qual participavam sua namorada na época e nossa amiga Luciana e três meninas: Gabriela, Isabela e Juliana. Elas tinham entre 15 e 16 anos na época. Nos meus 23 anos, achava-as profundamente fascinantes. Elas eram lindas e possuíam aquele brilho de quem está descobrindo o mundo, aquele fascínio de uma idade que consegue enxergar beleza em tudo à sua volta e que ama com uma pureza e desprendimento que não conseguimos emular em outros períodos de nossa vida. Tive uma adolescência bastante reclusa e só a partir dos 20 minha vida social começou a tomar uma forma mais definida. Devo ter projetado em minha mente tudo o que não vivi nos meus 16 anos através delas. Só sei que por um, ou por uma combinação de vários motivos, vi as imagens de minhas jovens amigas projetadas neste ambiente vampírico. Faltavam ainda mais dois elementos nesta ambientação. O local era óbvio. Na época, freqüentávamos a casa noturna Dr. Smith, cuja descrição vocês podem encontrar no primeiro capítulo do livro. Por último, a música: Smells Like Teen Spirit do Nirvana berrava em meus ouvidos com toda a obviedade de sua presença ali, o que não a tornava menos perfeita para aquele cenário.

Esta, portanto, foi a imagem que surgiu em minha mente no momento em que conversava com Mauro: Marco Aurélio (Mikahil), com Gabriela (Ana), Lúcia (Isabela) e Juliana (Susie), na escuridão da Dr. Smith ao som de Smells Like Teen Spirit.

 

Durante os três anos seguintes, essa história, que ainda se chamava Smells Like Teen Spirit, dormiu no meu cérebro. A trama e as situações foram surgindo, as imagens foram ficando mais sólidas. Nesta fase, ela não era um livro, mas um filme. Nutria desde os 11 anos o desejo de fazer cinema e muitos dos filmes que surgiam na minha cabeça eram baseados nas idéias de outros, como por exemplo O Portal de Eddie Van Feu, que formou-se bem nítido em minha mente como uma grande aventura spielberguiana. Smells Like Teen Spirit foi meu primeiro “filme” nascido dentro de mim mesmo. Ele nasceu através de imagens, e com e por elas foi nutrido.

Nesta fase, a última das personagens principais surgiu. Elise foi concebida à imagem e semelhança de minha grande amiga Eddie Van Feu. Curioso é o fato de que foi ela quem me introduziu a esta técnica de utilizar pessoas conhecidas como base para personagens. É uma técnica fascinante, pois, com imagem e personalidades definidos, os personagens começam a agir imediatamente com bastante desenvoltura e individualidade. Com o tempo, percebi que os personagens no papel vão se distanciando gradualmente de suas inspirações inicias e vão se tornando eles mesmos. Mikahil, por exemplo, começou como meu amigo Marco Aurélio, mas foi lentamente se transformando em mim. O resultado é uma terceira pessoa, que não é nem ele nem eu. O mesmo aconteceu com as demais personagens, embora sempre fique algo da inspiração original. Enquanto desenvolvia a história, procurei ficar o mais longe possível de qualquer coisa relacionada ao RPG Vampire. Não queria ser excessivamente influenciado por ele.

Ao fim deste período de três anos, algumas coisas ficaram claras. Aquela história estava forte demais para continuar só em minha mente. Sonhar com um filme não me levaria a nada. Esta história tinha que sair de mim de alguma forma. A hora havia chegado. Sentei meu precioso traseiro em frente ao computador e nos três meses seguintes, entre abril e julho de 1997, me dediquei a escrevê-la na forma de um livro.